Eram 20 h do dia 15 de Março de 2009 e já se sentia a vontade de fazer mais uma ronda.
Ponto de partida: a “Garagem”!
Quando lá chegamos, já se encontravam alguns elementos a preparar os kit’s. Já cheirava a bolos, a rissóis, a pães com fiambre e queijo, a croquetes e a xamussas. Alguém no meio daquela azafama, fazia uma triagem de roupas, que juntamente com a comida, iriam ser gentilmente oferecidas ao sem – abrigo da nossa cidade.
Com tudo pronto, era altura de entrarmos nos carros e partir pelas ruas!
A primeira paragem não tardou. Foi na Avenida da Boavista e estava tudo calmo. Apenas apareceram dois ou três sem – abrigo, que praticamente quiseram café e chocolate quente para se aquecerem. Quem apareceu também, para espanto de todos, foram dois agentes da autoridade, mas atenção, não foi para nos multarem! Foi para falar connosco e nos conhecer melhor, pois como eles afirmaram, “Existem muitas instituições a fazer o mesmo que vocês!”
Ficaram muito admirados por descobrirem o primeiro grupo que fazia esta actividade de caridade, sem estar ligado a nenhuma instituição. Debateu-se também o problema do grande número de grupos com a mesma actividade, nos mesmos locais, o que faz com que existam por aí fora muitos sem – abrigo, que não têm acesso a um simples saco de mantimentos. Começou a ficar tarde. Foi hora de nos despedirmos dos senhores agentes e continuar com a ronda.
A paragem seguinte foi a rua Júlio Dinis, que decorreu calmamente, com a entrega de café, chocolate quente e algumas sandes. Seguiu-se a paragem de S.Bento, da qual me recordo ter ficado admirado, com uma senhora ter afirmado ser adepta do Benfica, no meio de tanta gente, provavelmente adepta dos dragões!
Assim se seguiu Sta Catarina, onde encontramos a dona Dina, que estava bastante apreensiva com o facto de já se encontrar na rua há bastante tempo, mostrando grande vontade em sair dali.
A Trindade também foi uma paragem que me marcou muito, depois de ver o sr José Monteiro a cumprimentar-nos, benzendo-se depois. Era como se estivéssemos na posição de Deus, aquele que muitos dizem que é o nosso Salvador. Quem sabe se não seremos deuses da rua! Aqueles que colocam um sorriso na cara de tantas pessoas, que agradecem qualquer gesto da nossa parte. É certo que alguns sem – abrigo, pela sua condição de vida, encontram-se mais carrancudos e não nos mostram a simpatia que esperamos, mas esta é a vida de um sem – abrigo.
As horas passam, a ronda já vai a mais de meio e ainda nos faltam algumas paragens. St. António e o cenário é idêntico. Mais sem – abrigo esperam ansiosamente pela nossa chegada.
Os carros param mais uma vez e de lá saímos nós e pegamos novamente nas termos de café e chocolate quente. Estas bebidas são do agrado de todos. Há sempre uma grande agitação na espera destas bebidas, chegando a haver desentendimentos entre eles por um simples copo. É incrível como há tantas pessoas diferentes no mundo, umas que lutam por tanto e outras que lutam por tão pouco.
Seguindo viagem, fomos mais uma vez visitar o “filósofo”, chamado assim, por comunicar connosco de uma forma muito especial. Fisicamente pode ser considerado um sem - abrigo, mas mentalmente é mais rico e culto de que certos senhores do poder.
Finalmente aproximamo-nos do fim da ronda. O carro acelera para chegar ao local mais “respeitado” pelos elementos do nosso grupo, o Bairro do Aleixo. Nota-se um silêncio pesado, dentro do carro, á medida que chegamos ao local. De todas as paragens, esta é sem dúvida a que nos provoca um maior misto de sentimentos, que vai desde a adrenalina, ao medo, passando pela pena de ver tanta miséria existente. Como chegamos mais tarde desta vez, a agitação era muita. De um momento para o outro vimo-nos rodeados de pessoas desesperadas por um saco ou bebida, que lhes aquece-se o corpo e lhes reconforta-se o estômago. Deixamos praticamente de ver o céu, de tanta gente que nos rodeia.
Cai sobre nós a sensação de estarmos num mundo á parte, perante uma percepção completamente desfigurada do que deveria ser o real. Os sacos e as termos estão acabar. Porém, continuam a chegar cada vez mais pessoas com fome. Quando tudo acabou, alguns que chegaram mais tarde, ficaram com a desilusão e a tristeza estampada no rosto. Outro aspecto que me marcou, foi a capacidade de se fazer solidariedade neste local. Alguns foram os que abriram os seus sacos para partilharem o que tinham com os que tiveram menos sorte e nada tinham.
Cada vez mais sentimos o peso e a responsabilidade de ajudar as pessoas, que tal como nós, são humanos e de tanto de nós precisam. O sentimento que ficou foi a sensação de mais uma missão cumprida e a certeza que podemos fazer ainda mais.
Entramos nos carros e tudo parece voltar a normalidade.
Para trás ficam aquelas cinco torres, umas acesas e outras completamente apagadas.
Porém fica bem aceso na nossa mente, a vontade e ao mesmo tempo o receio de lá voltar...
texto da autoria de Nelson Costa
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